Sábado, 11 de Julho de 2009

The Signal


Alguns conceitos muito originais nesse exemplar de terror com toques cômicos. Um sinal – que dá o título do filme – permeia por todas as televisões, rádios e celulares, deixando quem se expõe com uma percepção distorcida da realidade e com uma vontade de matar incontrolável.

Já aparece aí a primeira inovação: depois do original “Extermínio” onde os contaminados ficavam irracionais, como um novo conceito de zumbis, dessa vez os seres humanos continuam racionais, porém com alucinações e fortes tendências assassinas o que causa o caos na cidade.

Apesar de ser uma história só, “The Signal” foi dividido em três segmentos, cada um com um diretor. Apesar do estilo de direção semelhante, o primeiro ato, mostra um terror mais acentuado. Já no segundo o filme vira quase uma comédia, o que não é tão bem vindo, mas não deixa de ter seqüências engraçadíssimas. Já na terceira parte entendemos mais como o sinal afeta a mente. Então a produção volta a ser séria, porém com toques mais dramáticos.

A edição é destaque, pois consegue nos prender e em vários momentos somos apresentados ao que aconteceu antes para um melhor entendimento da história. O melhor papel sem dúvida é do novato A.J. Bowen, como o marido traído que sai em busca de sua esposa e no caminho vai matando quem encontra. Ah, esse é o vilão . “The Signal” não vai revolucionar o gênero, mas com certeza vai agradar grande parte de quem adora o melhor do terror.

Evocando Espíritos


Quando a maré está baixa, não ser ruim, já é uma boa para uma ida ao cinema. É o que acontece com este terror que possui o carimbo ‘baseado em fatos reais‘ sobre uma família que se muda para uma casa assombrada que antes era ponto de rituais espíritas. Lá, justamente filho mais velho, com câncer, é o que mais sofre nas mãos dos fantasmas. Na verdade, a produção é baseada num episódio de um programa do Discovery Channel em 2002 que descreveu o caso.

Daí pra frente aparecem todos os clichês possíveis do gênero. Os sustos básicos, como vultos passando, rápidos closes e sons altos que assustam mais pelo som que pelo contexto, estão todos lá. E ainda tem aquele famoso personagem do padre / pastor que ajuda a família a lidar com os espíritos do mal (se bem que este só dá bola fora).

Por outro lado, a trama é consistente e não apela para maluquices ou explicações ilógicas, o que, acredite, já deixa o “Evocando Espíritos” um degrauzinho acima das produções do gênero. Boas maquiagens e efeitos especiais, além de um ritmo razoável, “Evocando Espíritos” é uma boa opção (mas longe de ser a melhor) da programação de cinema atual.

O Último Trem


Bradley Cooper de “Ele Não Está Tão a Fim de Você” finalmente é protagonista nesse terror onde ele interpreta um fotógrafo que desconfia que uma série de assassinatos no metrô de Nova York pode estar ligada a um truculento açougueiro (Vinnie Jones de “Os Condenados“). Quanto mais ele investiga, mais obcecado pelos crimes fica.

Surpreende o cuidado que seus realizadores tiveram com os efeitos especiais. Há muito tempo não se via mortes tão realistas e com closes tão graficamente explícitos. A cena da morte de três executivos (com uma peculiar participação de Ted Raimi, irmão do diretor Sam Raimi de “Homem-Aranha 3“) vai fazer os mais sensíveis fecharem os olhos. Os fãs do gore vão pular nas cadeiras de felicidade.

Melhor ainda e saber que a história fui muito bem trabalhada e mostra a coerência necessária para que ninguém pergunte como até então o assassino não tinha sido capturado. Tudo bem que no ato final, há quem vá torcer o nariz para a explicação dada, uma vez que só neste ato é que o filme mostra sua verdadeira natureza. Ainda sim “O Último Trem“, baseado num conto do mestre do terror Cliver Barker (quem não conhece é só ver “Hellraiser“) se mostra uma ótima opção para se assistir um puro terror que mistura sangue com um thriller psicológico e ainda conta com interessantes extras no DVD.

Livro de Sangue


Sabe aqueles bons filmes de terror, desconhecidos do grande público e que acabam como empoeirados DVD’s dentro das locadoras? Este é um deles. Em uma mistura de “Evocando Espíritos” com “1408“. Professora e escritora que se especializou em investigar casos sobrenaturais se junta com um jovem universitário que parece ter poderes paranormais para investigar uma casa onde estranhos fenômenos aconteceram no passado.

Baseado num conto no célebre mestre Clive Barker, nos deparamos com uma trama honesta com uma boa dose de suspense e que envolve uma interessante questão sobre a crença no sobrenatural. E mais: na própria natureza obscura do homem. Isto é, quem é capaz de ter a personalidade mais sombria, o homem ou os espíritos. Essas respostas, o espectador descobre ao longo do último ato. Melhor ainda é ver a conexão dos primeiros minutos da projeção com o seu desfecho.

Ok, algumas cenas até carecem de sentido, mas baseado no que as produções de terror eventualmente entregam, “Livro de Sangue” está um nível acima, até dos últimos lançamentos do cinema, inclusive no que diz respeito aos efeitos especiais. É ver para crer.

Transformers - A Vingança dos Derrotados


Vocês sabiam que os Transformers estiveram aqui na terra na pré-história para fazer uma máquina capaz de drenar o nosso sol e arranjar energia pro planeta deles? Alguém pode perguntar: mas essa energia não era daquele tal cubo Allspark? Então qual a razão do cubo? Essas poucas perguntas já destroem o roteiro da continuação do já fraco “Transformers“.

E mais: apesar do filme anterior fazer questão de dizer que aqueles eram os últimos robôs sobreviventes de seu planeta natal, essa seqüência simplesmente ignora tudo isso e fazem os robôs – Autobots e Decepticons – brotarem na Terra que nem Gremlins depois de um copo d’água. E as crias não poderiam ser mais absurdas: de um robô com barbas (isso mesmo), passando por um robozinho que vira animal de estimação até gêmeos com dente de ouro e que não sabem ler numa menção humorística dos rappers americanos e, diga-se de passagem, bem negativa. E ainda introduzem um personagem novo, o tal Fallen, que fica não se sabe onde e muito menos porque está lá.

O jovem Sam (Shia LaBeouf, o também filho de Indiana Jones) continua pegando Mikaela, interpretada pela mais bela das belas Megan Fox (”Um Louco Apaixonado“) que está no filme apenas para deixá-lo mais bonito e dando esperança para os feios nerds do mundo se darem bem em alguma encarnação. Aliás, ela é a única pessoa que permanece com maquiagem e ainda linda depois de correr por explosões, cair na areia e se meter em fogo cruzado.

A trama de que Sam, ao pegar num pedacinho do cubo, torna-se a chave para encontrar a máquina de energia é tão sem sentido que nem o ator parece acreditar, já que atua de forma ridícula na tela, chegando a ser constrangedora a cena em que ele fica repetindo vários trechos do mesmo diálogo. Os robôs que podiam fazer a diferença como personagens, não o fazem, porque já vemos desde o início que todos são passíveis de ressuscitar, fazendo assim o público não se preocupar com o destino deles. O diretor Michael Bay ainda tem a mania de fazer o mundo acabar sem mostrar sequer um figurante sendo morto (há uma ou duas exceções), dando um ar de artificialidade e tirando a urgência da situação.

De bom, apenas efeitos especiais de cair o queixo e cenas de ação com coreografia um pouco melhor que no primeiro, onde nem sabíamos o que estava acontecendo. Esse novo “Transformers” é um filme feito por e para retardados com um conteúdo sem pé nem cabeça e que, como pior característica, contradiz muito do original, o qual já tinha uma trama sem sentido. Tenta ser sério, mas tem uma veia cômica que quase o torna uma paródia de si mesmo. Mas é daquelas produções onde não adianta dizer pra não ir. Quem gosta de ação vai de qualquer jeito. Azar.

END OF THE LINE


Neste arrepiante thriller, Karen (Ilona Elkin), uma jovem enfermeira que trabalha num hospital psiquiátrico, pega o último metrô da noite e é supreendido quando ele pára no meio do túnel. Quando todos que a cercam são brutalmente assassinados, Karen e alguns sobreviventes devem encarar forças sobrenaturais, os membros de um culto religioso homicida, como também seus próprios medos e suspeitas de um Armageddon, se quiserem viver.

Meus irmãos de fé (e contribuintes), é com grande satisfação que começamos mais uma noite de orações na nossa Igreja La Chiesa sob a orientação do nosso mestre espiritual Sri Bateuma Raphagandhi. Somos filhos do medo, e a ele oferecemos as mensagens positivas que transmitiremos nesta data especial. Aleluia, irmãos! (e o público repete com ênfase) Hoje, é o dia em que preparemos nossas almas para o fim. Sim, minha querida, meu querido....o mundo está prestes a acabar. Oraremos todos numa única voz e convocaremos outros irmãos a orarem por nós.

"Por que o fim está próximo?" - você me pergunta. Quando pensamos na quantidade de obras que chegam diariamente aos nossos olhos puros, nosso peito se enche de tristeza. São muitas imagens iguais, representações das mesmas idéias, sem inovações, apenas continuações. Meus irmãos, São Clichê deve estar feliz com tantas homenagens e provas de carinho, mas não devemos adorar um único santo - lembrem-se dos nossos 90 regras de sobrevivência! A desculpa dos malfeitores é sempre a mesma: se o filho de Deus ressuscitou, por que não podemos ressuscitar várias vezes a mesma obra? Até mesmo Cristo tem sofrido com suas imitações e tentativas de poluirem suas dádivas.

É o fim, meus queridos. Mas, temos que ter fé. Ainda há esperança! Aleluia! (mais uma vez o público grita empolgado). São pessoas como Maurice Devereaux que nos fazem acreditar que ainda existem meios de produzir uma obra digna do gênero. Ele foi o responsável pela crítica ousada aos reality shows com seu ótimo "$la$her$", mesmo tendo poucos recursos para viabilizar seu trabalho. Depois de sete anos de silêncio - Jacó que o diga -, o cineasta francês surge com mais um bom trabalho, ainda que um pouco influenciado com o que já foi mostrado antes. Meus irmãos, o sermão de hoje é dedicado ao mais recente filme de Devereaux chamado "End of the Line". Já ouviram falar?

Vocês que prestigiam nossos cultos da madrugada e que abandonam seus lares para nossos encontros de fé sabem que filmes que têm como pano de fundo as estações de trem e metrô existem aos montes. Recentemente, Ryuhei Kitamura trouxe o digital, mas interessante, "O Ùltimo Trem", baseado em obra de Clive Barker. Antes, já tínhamos acompanhado o também ótimo e sinistro "Plataforma do Medo", de Christopher Smith...Ainda vimos o "Metrô da Morte", com Donald Pleasence, além do clássico "Expresso do Horror", com Christopher Lee e Peter Cushing; o desgovernado "Expresso para o Inferno", o "Trem do Terror", com Jamie Lee Curtis, o extra-terrestre "Trem da Morte", o divertido "Pânico a Bordo"; e o fraquinho "Expresso Macabro", com David Naughton - sim, amigos, aquele mesmo que fez o clássico "Um Lobisomem Americanos em Londres" e que tem aquela famosa e assustadora cena de ataque no metrô. Notaram como o mundo dá voltas?

Por falar em cenas clássicas no metrô, os fiéis podem lembrar também do suicídio coletivo do clássico japonês "Suicide Club", de 2002 e também da aparição assustadora no ótimo "Shutter" tailandês; além da melhor cena do filme "Premonição 3", na seqüência final, que muitos acreditam que poderia ser o pontapé para o quarto filme; entre outros bons momentos.

Por falar em cenas clássicas no metrô, os fiéis podem lembrar também do suicídio coletivo do clássico japonês "Suicide Club", de 2002 e também da aparição assustadora no ótimo "Shutter" tailandês; além da melhor cena do filme "Premonição 3", na seqüência final, que muitos acreditam que poderia ser o pontapé para o quarto filme; entre outros bons momentos.

O filme já começa dando um banho de sangue no espectador. Os créditos iniciais surgem enquanto acompanhamos um passeio de metrô por túneis escuros e sombrios, com a câmera balançando como se fosse uma passageira. Dentro do vagão está Karen (a belíssima Ilona Elkin), que observa um grupo de estranhos de costas ao fundo, enquanto nota um envelope grande endereçado a ela, num banco próximo. Ao abri-lo, a garota se surpreende ao notar que há um desenho que retrata com exatidão aquelas pessoas que ela vê ao fundo. Quando ela compara a imagem com os personagens no metrô, eles a atacam violentamente com um visual bastante amedrontador: com olhos e boca costurados com pele. Ela então aparece mergulhada num mar de sangue até acordar entre lágrimas no chuveiro. Após o banho, a jovem se prepara para mais uma noite de trabalho ao lado de seu viralata Happy, enquanto o rádio relata uma série de atentados suicidas que anda aterrorizando a população em vários lugares do mundo, envolvendo conflitos religiosos - algo que nunca acontecerá com a nossa comunidade que prega a paz, irmãos!

Na cena seguinte, temos uma referência aos filmes orientais de terror: sozinha, uma jovem japonesa aguarda com muito nervosismo a chegada do metrô. Ela percebe ao fundo uma pessoa de costas; a cada desvio de olhar a figura está mais perto. Quando o trem se aproxima, a pessoa se vira lentamente e está com a boca também costurada e cheia de vermes. Aterrorizada, a garota se joga na frente trem.

Toda essa sequência acontece antes dos cinco primeiros minutos do filme. Por isso, irmãos, eu disse que existe uma salvação para o gênero. Dois momentos assustadores para deixar o espectador preso à poltrona, querendo saber o que são essas criaturas terríveis e o que elas pretendem. Aleluia, meus amigos! (e a população proclama em voz alta). São oito horas da noite. Em seu trabalho noturno no hospital psiquiátrico, Karen tenta conter a loucura de um paciente que insiste em dizer que os demônios estão em todos os lugares. Sem querer tomar seu remédio, o paciente (que lembra bastante o Padre Quevedo) engole o terço que segura para desespero da jovem. Duas horas depois, Karen conversa com outro enfermeiro e ambos estranham a quantidade de atendimentos naquela noite. O colega diz que pode ter alguma relação com o fato de ser uma noite de lua cheia, com eclipse lunar. Sim, meus irmãos, a noite era igual a esta de hoje. Daqui a pouco, teremos o fenômeno, vamos aguardar com ansiedade as orientações de nosso mestre.

No hospital, em destaque uma mensagem de esperança de uma seita que oferece "muffins" (!!!). Uma outra colega de Karen conta a ela sobre o suicídio da garota que acompanhamos a pouco, chamada Viviane Lee, que era paciente do hospital. Uma hora depois, quando o relógio aponta para as onze, Karen come um "muffin", quando nota um envelope grande idêntico a aquele que ela viu em seu sonho. Enviado por Viviane, traz a mensagem "Logo, eles irão se revelar", e apresenta alguns desenhos bem feitos, mostrando pessoas ao redor de uma fogueira com o rosto do demônio, uma sala de aula e um lugar do hospital, onde aparecem criaturas escondidas. A porta atrás dela se abre, derrubando o crucifixo na parede, para a entrada de um funcionário da limpeza - num susto bem feitinho.

Hora de ir embora. Karen já está na estação aguardando o último metrô, que evidencia mensagens religiosas por todos os lados. "Ouça a Voz". Já passa da meia-noite, estão apenas ela e um rapaz que ela discretamente paquera. Surge um outro que fica enchendo a paciência de Karen, dizendo para ela dar atenção a ele pois pode não existir o amanhã. Salva por sua paquera, que se apresenta como Mike, Karen diz que não quer papo, mas acaba se aproximando do rapaz após ter uma visão assustadora da jovem Viviane em pedaços no trilho, pedindo ajuda. O trem chega. Os três entram em vagões separados

Assim que entra no túnel, o trem dá uma freada brusca e pára, alertando que alguém apertou o botão de emergência, apesar da garota não conseguir entender direito a mensagem do maquinista, sempre acompanhada de um som sinistro. Uma voz assustadora começa a chamar Karen. Ela está sozinha, irmãos. Coloquem-se no lugar dela. Tudo isso que eu narrei até o momento aconteceu antes dos primeiros quinze minutos de filme. Ficaram com medo? Ainda não ouviram nada.

Outra aparição da Viviane morta e ensanguentada na janela do metrô aterroriza Karen, que, desesperada acaba reencontrando Mike. Minutos depois, surge uma senhora de aparência simpática, querendo saber também porque o trem parou no túnel escuro. Ela diz ter visto algumas pessoas esquisitas andando do lado de fora do trem dizendo ser o "fim da linha". Logo, a "boa senhora" é interrompida pelo seu pager. Depois de ler a mensagem, pega em sua bolsa um punhal em forma de cruz e acerta violentamente Mike nas costas, espirrando sangue exageradamente na janela do trem. Ela diz que eles precisam ser salvos. Quando surgem novas pessoas com punhais, Karen e Mike saem correndo do vagão.

Nesse momento, temos uma ação inteligente desse belíssimo roteiro, irmãos de fé! O tempo volta e mostra o que aconteceu quando aquele estranho, Patrick, que havia aterrorizado Karen na estação, entrou no trem. Vemos o mesmo aterrorizando uma japonesa e até sendo o motivo da parada do trem no túnel até o toque do pager que ele também possui. Conhecemos outros personagens sendo atacados pelo grupo de religiosos com seu punhal espalhados no trem. Entre eles, temos um casal de jovens (Jonathan e Sarah), que resolve transar no vagão, até sairem depois da parada para bagunçar no túnel - foram seus gritos que Karen escutou quando estava com Mike. Há também um rapaz que conseguiu fugir do trem com um machado depois de ser perseguido por cinco membros da religião.

Assim, Mike e Karen se unem a Jonathan e Karen, à japonesa e ao rapaz do machado, além de dois operários do metrô - Davis e Frank. Eles se trancam numa sala e se armam como podem - martelo, pé de cabra, machado, o que estiver ao alcance. Lá, descobrem que aquilo está acontecendo em todos os lugares. Os radios e a televisão só transmitem a mesma mensagem. Eles precisam sair daquele lugar, mas para isso terão que enfrentar a fúria dos fanáticos e seus punhais. Não é maravilhoso, irmãos? Sim, irmãos, "End of the Line" é um filmaço. Apesar de possuir uma idéia que já foi aproveitada antes - alguém assistiu "Fórmula Fatal", de Daniel Myrick? - é bem feito, com ótimos sustos e cenas sangrentas com direito a machadada no rosto, martelada, apunhaladas pelo corpo...sem poupar sangue. Diferente da nossa religião, irmãos, a "Voz da Esperança Eterna" prega a salvação da almas através do assassinato antecipando a chegada de demônios que irão surgir para castigar os que estão vivos. É ousado ver os religiosos esfaqueando as pessoas com frases como "Deus te ama" ou "Deus é Amor".

Além daquela senhora "simpática" Betty, o filme traz um outro personagem peculiar: Jerry, um membro da religião que não quer matar ninguém. Não quer seguir as ordens do Reverendo, questionando suas atitudes violentas. No decorrer do filme, vemos seus colegas tentando iniciá-lo no processo - algo que lembra bastante a iniciação em "O Albergue II". Patrick é outro personagem de destaque no longa. Sua presença repugnante e sua fala afiada incomodam os heróis e os espectadores a cada aparição.

Apesar do final deixar uma dúvida no ar sobre duas possibilidades, a mensagem que fica é mais assustadora do que os demônios. Até que ponto a fé e a religião podem destruir o homem? Tendo em vista os conflitos que acompanhamos diariamente nos noticiários, além dos famosos casos de fanatismos religiosos que levam pessoas a cometerem suicídio ou crimes bárbaros, a conclusão a que chegamos é a do fim iminente.

Graças ao nosso mestre espiritual, temos consciência dos nossos atos e sabemos que estamos contribuindo para a salvação da humanidade, meus irmãos! Esse tal Reverendo do filme não se compara ao nosso guia de luz - não acreditamos que devemos matar as pessoas para levá-las ao Reino de Deus, já que a catedral é o nosso corpo, Ele está em nós! Aleluia, irmãos! (mais um grito eufórico).

Bom, chegou o momento que aguardávamos. Nosso Mestre pede que saiamos às ruas em busca de novos fiéis, preparando-os para o fim dos tempos. Lembrem-se: nada de mortes, apenas torturas - principalmente para aqueles que seguem outras religiões e que não conhecem o caminho da verdade! Aleluia...

Sábado, 14 de Março de 2009

THE EYE - A HERANÇA


Quando você for à locadora e se deparar com a fita/DVD do filme THE EYE - A HERANÇA, e pedir referências ao balconista, provavelmente a resposta será algo assim: "Ah, é uma cópia chinesa de O SEXTO SENTIDO". Se o mundo fosse um lugar justo, este excelente filme de horror vindo da Ásia (como a maioria dos bons títulos recentes) jamais ficaria à sombra do sucesso de M. Night Shyamalan. Até porque, descontando a idéia básica (os personagens dos dois filmes podem enxergar pessoas mortas), são dois roteiros e produções completamente diferentes.

Não vou querer levantar polêmica e conquistar inimigos tentando decidir qual dos dois é melhor, O SEXTO SENTIDO ou THE EYE - A HERANÇA, mas não tem como deixar de dizer que a história do filme chinês é muito melhor e mais interessante. Isso porque enquanto no filme americano o garotinho interpretado por Haley-Joey Osment enxerga os mortos apenas porque o roteiro assim determina, na produção de Hong-Kong há uma explicação (sobrenatural, mas há) para o fenômeno, e uma reviravolta final muito mais marcante - ainda mais quando consideramos que a história de O SEXTO SENTIDO só existe para justificar a surpresa relativa ao personagem de Bruce Willis na conclusão.

Chamado JIAN GUI na Ásia, THE EYE - A HERANÇA foi dirigido conjuntamente pelos irmãos gêmeos Oxide e Danny Pang, que já tinham trabalhado em outros filmes anteriormente, mas sempre separados. Como ultimamente a moda é irmãozinhos fazerem filmes juntos (vide irmãos Coen, irmãos Wachowsky, irmãos Hughes, entre outros), eles resolveram unir forças para dirigir esta obra-prima do gênero em 2002 - portanto, três anos depois de O SEXTO SENTIDO, para que ninguém acuse os chineses de quererem faturar em cima de um filme de sucesso. THE EYE foi lançado no Brasil em 2004 com a tradução A HERANÇA ao invés de O OLHO. Ironicamente, em 2004 saiu no restante do mundo a primeira continuação do filme, THE EYE 2, também dirigida pelos irmãos Pang.

THE EYE - A HERANÇA aproveita uma interessante premissa que também está em O SEXTO SENTIDO: o drama de um vivo que enxerga os mortos, e como a vida desta pessoa é praticamente destruída pelo medo de encontrar, a todo momento, os espíritos dos falecidos, mostrando-lhe as chagas abertas que provocaram suas mortes. Mas a história chinesa está um passo a frente do roteiro de Shyamalan porque também enfoca um segundo drama humano: o de uma pessoa cega durante toda a vida que, já adulta, volta a enxergar.

Imagine por um momento o que é passar a vida inteira no escuro, sendo obrigado a viver com a ajuda de amigos e familiares, sem saber ler, dependendo apenas dos outros sentidos (especialmente tato e audição), reconhecendo os objetos pelo toque, não por como eles se parecem, e ainda sem nem ao menos saber como é o seu próprio rosto ou a roupa que você está vestindo. Pois assim é a vida de Wong Kar Mun (a malasiana Angelica Lee, que usa o pseudônimo "Lee Sin-Je", e dá um banho de interpretação, fazendo o espectador realmente ficar com pena da sua personagem). No início, Wong caminha pelas ruas de Hong-Kong com sua bengala e os olhos vazados cobertos pelo óculos escuros, refletindo consigo mesmo: "Muitas pessoas dizem que o mundo é feio, mas ao mesmo tempo é belo. Não sei se elas estão certas, mas estou prestes a ver isso com meus próprios olhos".

Entram os créditos de abertura em código braile (como no filme americano DEMOLIDOR, baseado nos quadrinhos da Marvel), e, num salto rápido na narrativa, a cega faz uma cirurgia de transplante de córneas (tudo que ouvimos é o médico dizendo que vai aplicar a anestesia, num corte dinâmico, sem enrolação). Wong perdeu a visão com 2 anos de idade e não faz a menor idéia do mundo que lhe espera quando os médicos retirarem os curativos que cobrem seus "novos" olhos. No quarto do hospital onde ela fica em recuperação, também estão internadas uma menina de 11 anos que sofre com tumor no cérebro, chamada Ying-Ying (Yut Lai So), e uma senhora idosa.

A expectativa de Wong cresce de maneira insuportável quando o dr. Lo (Edmund Chen), o especialista que lhe operou, finalmente tira os curativos. Inicialmente, como os olhos e o cérebro ainda não se acostumaram com a "novidade" da visão, Wong só enxerga vultos, bem distorcidos - e assim também enxerga o espectador, do ponto de vista da personagem, ficando quase tão perdido quanto a moça. Mas ambos (a ex-cega e o espectador) percebem algo estranho quando, na sala onde só estão a avó e a irmã de Wong, pode ser enxergado um terceiro vulto desfocado.

A situação piora na primeira noite que Wong passa no hospital, já enxergando. Ela acorda de madrugada e percebe que um vulto vestido totalmente de preto está parado ao lado da cama da velha senhora. Como os olhos da moça só enxergam sombras distorcidas, ela não consegue reconhecer quem é o estranho que leva a velha para fora do quarto, mas desconfia da situação e vai atrás procurá-los. No corredor escuro do hospital acontece a primeira cena verdadeiramente assustadora do filme, sem qualquer efeito especial ou computadorizado (hahahaha) para subestimar a inteligência do espectador, apenas uma câmera fora de foco e excelentes efeitos sonoros. Acontece que Wong, sozinha no corredor, escuta gemidos arrepiantes da velha vindos de um local distante. De repente, os lamentos cessam... só para recomeçarem de repente, e bem atrás da moça!!! Assustada, ela se vira e vê o vulto da idosa, desfocado, dizendo, quase num lamento: "Estou com muito frio...", antes de desaparecer.

Sim, como pode prever qualquer pessoa que viu O SEXTO SENTIDO, Wong recomeçou a enxergar e, como "bônus", também está vendo os espíritos de pessoas mortas recentemente, ou então de suicidas que foram condenados a continuar eternamente no local onde tiraram suas próprias vidas. Mas ela também vê os misteriosos vultos de negro, que apelida de "homens-sombra", e que aparentemente são guardiões encarregados de levar a alma dos mortos ao seu destino final. Com o passar dos dias, a moça ainda enxerga seu quarto mudar para outro totalmente diferente e depois voltar ao normal, além de sofrer com pesadelos onde enxerga a si mesma em um velho hospital, rodeada de agonizantes vítimas de queimaduras.

Inicialmente, Wong reluta em acreditar que o que ela vê são fantasmas. E mais e mais aparições vão surgindo, como um garoto de boné que ronda o prédio onde ela mora pedindo se a moça encontrou seu boletim, ou, na segunda cena mais assustadora do filme, uma moça-fantasma que tenta agarrar Wong porque ela está sentada na cadeira que a assombração usava quando era viva. Prepare-se para pular você da cadeira nesta cena verdadeiramente arrepiante!

Paralelamente às macabras visões, a moça tenta reconstruir sua vida, já que o fato de enxergar mudou completamente sua rotina. Para começar, ela não conhece nenhum objeto pelo seu visual, mas sim pelo toque, sendo necessário reaprender tudo que já conhece, como se fosse uma criança. Também é obrigada a aprender a ler e a escrever, e tem que abandonar muitas coisas, como a orquestra de deficientes visuais onde tocava violino, simplesmente porque não é mais cega. A situação a certo ponto fica tão dramática que Wong chega a pensar que sofreria menos voltando a ser cega.

É quando entra em cena o psicólogo Wah (Lawrence Chou, que parece muito jovem para ser médico, mas tudo bem), sobrinho do dr. Lo, que tenta ajudar Wong na sua adaptação ao "mundo real" e também a investigar o mistério quando a moça lhe confessa estar tendo visões de espíritos - mas ela jamais fala "I see dead people", hehehehe. O casal logo parte para Bangcoc, na Tailândia, em busca de informações sobre a doadora das córneas transplantadas para Wong - e que era uma vidente que se suicidou depois de prever um gigantesco incêndio onde mais de 300 pessoas morreram. É ali que Wong encontrará a chave para o mistério, mas o final inclui ainda uma explosiva (literalmente) reviravolta.

THE EYE - A HERANÇA é um filme fabuloso. Poderia ser um terror rasgado com muito sangue, fantasmas feitos em computação gráfica (tipo um 13 FANTASMAS da vida) e outras frescuras. Mas prefere ir em outra direção, mais humana e mais dramática, fazendo com que o espectador simpatize a todo momento não só com a situação de Wong, mas também dos outros personagens (como a pequena Ying-Ying e até alguns dos sofridos fantasmas que a ex-cega visualiza). O roteiro alterna de forma incrível o horror e o drama da situação, e consegue modernizar uma das tramas mais batidas do cinema de horror (fantasmas), colocando espíritos melancólicos para assombrar uma grande cidade moderna, do século 21, ao invés de um centenário casarão vitoriano, como é comum.

Mas que ninguém pense que o filme pega leve no suspense e no horror. Pelo contrário: prepare-se para roer as unhas em cenas do mais puro suspense. Como Shyamalan na clássica cena onde o garotinho se esconde numa tenda feita com seu cobertor em O SEXTO SENTIDO, os irmãos Pang criaram uma seqüência de tirar o fôlego envolvendo uma aparição dentro de um elevador - que sobe, lentamente, para o 15º andar do prédio onde Wong vive. À medida que o elevador demora em subir e o vulto mostrado apenas de relance vai se aproximando de Wong, o espectador, numa tensão crescente, chega a ficar sem fôlego com aquela agonia - curiosamente, trata-se de um dos únicos "fantasmas" com uma maquiagem mais elaborada, pois todos os outros são simplesmente atores com o rosto pintado de branco.

Além de diretores, os irmãos Pang tiveram domínio total da sua obra. Também escreveram o roteiro (a operação para voltar a enxergar e a tragédia no final foram inspiradas em manchetes que eles leram em jornais), editaram o filme e até cuidaram dos efeitos sonoros. Como aconteceu com muitos outros cineastas orientais de talento (tipo Hideo Nakata, de RINGU, e Takashi Shimizu, da série JU-ON), os Pang já foram "importados" pelos altos executivos de Hollywood, que certamente já perceberam o marasmo de idéias repetitivas que se tornou o cinema americano, principalmente de horror. Já foi anunciado qual será o primeiro filme da dupla na América: o projeto se chama SCARECROW, com previsão de lançamento em 2006.

E a obra de sucesso de ambos, THE EYE, já teve os direitos comprados pelos americanos. Parece até que a ordem ultimamente, em Hollywood, é adquirir filmes japoneses para refilmar, pois o remake de RINGU (THE RING - O CHAMADO, de Gore Verbinski) e o de JU-ON (que virou O GRITO, com direção do próprio Shumizu) foram grandes sucessos de bilheteria, e também vem por aí a refilmagem de DARK WATER, filme de Hideo Nakata que foi refeito nos Estados Unidos pelo diretor brasileiro Walter Salles (até tu, Walter?). Segundo o site IMDB, que nem sempre é uma fonte confiável, a versão americana de THE EYE deve ser lançada ainda este ano, mas as filmagens nem sequer começaram. Por enquanto, só se sabe que o roteiro dos irmãos Pang será adaptado para o Ocidente por Sebastian Gutierrez (o mesmo roteirista de NA COMPANHIA DO MEDO). Nos fóruns internéticos, o assunto do momento é se o remake americano irá manter o final trágico e bem pouco otimista do filme oriental.

Então, se você quer ver um filme com a certeza de que ficará completamente absorvido pela história e ainda levará uns bons sustos no processo - ou, pelo menos, ficará bastante tenso, a não ser que você tenha sangue de barata!!! -, pode correr para a locadora e alugar THE EYE - A HERANÇA, mesmo que o balconista diga que é uma cópia piorada de O SEXTO SENTIDO ou outra bobagem do mesmo calibre. E prepare-se para, mais uma vez, ver que a esperança de renovação do cinema de horror vem da Ásia, pois eles estão dando uma aula de como não é necessário ter efeitos de computador ou riachos de sangue para deixar os nervos do espectador em frangalhos. THE EYE - A HERANÇA é, talvez, um dos filmes mais arrepiantes dos últimos anos.

E por falar em arrepiante, prepare-se para uma surpresa: como sempre acontece em filmes envolvendo fantasmas, THE EYE - A HERANÇA também tem uma lenda urbana. Repare na cena em que Wong e o dr. Wah conversam no metrô. É possível ver um rosto fantasmagórico, de relance, refletido em uma das janelas do trem. Ele aparece duas vezes e nenhuma explicação para o fenômeno é dada no filme. Muitos acreditam que se trata de um fantasma de verdade, captado pelas lentes de cinema. Pura balela, é claro, mas a cena é realmente arrepiante e dezenas de posts em fóruns na Internet juram que se trata de uma aparição de verdade. Quem sabe o tal fantasma apareceu no set para parabenizar os irmãos Pang pelo excelente trabalho... Aliás, perdoem o trocadilho, mas é bom ficar de olho nos futuros trabalhos da dupla.